Sábado, 15 de Março de 2008

De coração...

 

 

O estacionamento estava deserto quando me sentei para ler debaixo dos longos ramos de um velho carvalho.

Desiludido da vida, com boas razões para chorar, pois o mundo estava a tentar afundar-me.

E se não fosse razão suficiente para arruinar o dia, um rapaz ofegante chegou-se, cansado de brincar.

Ele parou na minha frente, cabeça pendente, e disse cheio de alegria:

- Veja o que encontrei!

Na sua mão uma flor, e que visão lamentável, pétalas caídas, pouca água ou luz.

Querendo ver-me livre do rapaz com a sua flor, fingi pálido sorriso e virei-me.

Mas ao invés de recuar, ele sentou-se a meu lado, levou a flor ao nariz e declarou com estranha surpresa:

- O cheio é óptimo, e é bonita também... por isso peguei-a; peguei para ti, é tua!

A flor à minha frente estava morta ou a morrer, nada de cores vibrantes como laranja, amarelo ou vermelho, mas eu sabia que tinha que pegá-la, ou ele jamais sairia de lá.

Então estendi-me para pegá-la e respondi:

- O que eu precisava!

Mas, ao invés de colocá-la na minha mão, ele segurou-a no ar sem qualquer razão.

Nessa hora notei, pela primeira vez, que o rapaz era cego, que não podia ver o que tinha nas mãos.

Ouvi a minha voz sumir, as lágrimas despontarem ao sol enquanto lhe agradecia por ter escolhido a melhor flor daquele jardim.

- De nada. - ele sorriu.

E então voltou a brincar sem perceber o impacto que teve no meu dia.

Sentei-me e pus-me a pensar como ele conseguiu ver um homem auto-piedoso sob um velho carvalho.

Como ele sabia do meu sofimento auto-indulgente?

Talvez no seu coração ele tenha sido abençoado com a verdadeira visão.

Através dos olhos duma criança cega, finalmente entendi que o problema não era o Mundo, mas sim EU.

E por todos os momentos em que eu mesmo fui cego, agradeci por ver a beleza da vida e apreciei cada segundo que é só meu.

E então levei aquela feia flor ao meu nariz e senti a fragrância de uma bela rosa, e sorri quando via aquele rapaz com outra flor nas suas mãos, prestes a mudar a vida de um insuspeito senhor de idade.

 

Fonte: Templo dos Sonhos

 

 

 

música: How To Save A Life - The Fray

2 comentários:
De Sara a 16 de Março de 2008 às 21:37
É verdade, somos cegos perante os mais pequenos e belos aspectos da vida. Só vemos o que nos interessa. Mas não. Não devia ser assim. Felizmente, há quem consiga ver essas coisas, e são essas pessoas que dão um outro ar à nossa vida e à percepção que temos do mundo.
Muito bonito o texto.
Beijinho


De guiga a 17 de Março de 2008 às 16:56
Belo excerto! :)
Beijinhos *.*


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